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A Internet, as Redes Sociais e as Relações Virtuais por Juliano Ferreira

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Este capítulo tem por objetivo traçar um breve perfil do impacto do surgimento da Internet e o estabelecimento de novas relações a partir das redes sociais, em particular do Facebook. Acreditamos que essa discussão seja necessária para compreendermos a forma como as diversas comunidades tem ocupado esse espaço em uma perspectiva política de atuação. Apesar do principal uso das redes sociais ter o objetivo de socialização de perfis individuais para só então partirem para contatos com outros, há uma incontável presença de perfis coletivos, com diferentes sentidos, desde as propostas econômicas, inseridas no mercado até as mais libertárias, com objetivos emancipatórios e sem fins lucrativos. Desse modo, queremos apenas delinear que mundo é esse para o qual dedicamos atenção na realização desse trabalho.
           

A ideia cristalizada que se tem de um quilombo pós-escravidão precisa ser desconstruída. Na contemporaneidade, as comunidades negras rurais quilombolas possuem acesso a diferentes meios de comunicação. O isolamento em aldeias inóspitas e inacessíveis cede lugar a energia elétrica e consequentemente ao televisor, ao rádio, ao aparelho de dvd, a antena parabólica, a antena da TV por assinatura, em alguns lugares e ao celular, que conectado a uma antena externa, não só permite fazer e receber ligações, mas acessar a internet, mais especificamente as redes sociais, como facebook, twitter, instagram e whatsapp, só para citar algumas plataformas mais hegemônicas neste limiar do século XXI.
           

É neste contexto de comunidades em rede, conectadas com um mundo globalizado via internet, que se objetiva estudar nesta monografia a presença de populações quilombolas na WEB, mais especificamente no Facebook. Como elas organizam suas páginas, as fotografias, as publicações, ao tempo em que se descreve os aspectos técnicos, se busca, uma tentativa de interpretação do conteúdo publicado nas páginas, perfis e grupos.
           

Antes, porém, de apresentar a parte empírica da pesquisa, que é a descrição densa proposta por Clifford Geertz (2008), dentro da Netnografia enquanto método, se discute sobre a Cibercultura, como emergente campo disciplinar, a partir do ponto de vista da Comunicação, principalmente, mas não só. A Cibercultura atravessa a Educação, a Antropologia, a Ciência Política, a Sociologia, a Computação e naturalmente, a Comunicação e o Jornalismo e as demais habilitações da área: Relações Públicas, Rádio e TV, Audiovisual, Cinema. Desse modo, considera-se importante apresentar este debate preliminar sobre Cibercultura, a partir de autores como Pierre Lévy (1999, 1993, 2000, 2010), André Lemos (2004), Luiz Adolfo Andrade (2012), Erick Felinto (2011).

3.1 OS PRIMÓRDIOS DA INTERNET           

A Rede Mundial de Computadores (World Wide Web), a Intenet, nasceu vinculada a objetivos militares, acompanhando o caminho de surgimento de grande parte da tecnologia desenvolvida no mundo. O marco de início foi a Guerra Fria, uma disputada entre ocidentais e orientais que conduziu a uma corrida tecnológica sem precedentes.
Em 1957, a antiga União Soviética colocou em órbita o seu primeiro satélite espacial artificial, o Sputnik, e, quatro meses depois, o presidente norte-americano Dwight Eisenhower anunciava a criação da AdvancedResearchProjectsAgency (ARPA), ligada ao Departamento de Defesa, cuja missão era pesquisar e desenvolver alta tecnologia para aplicações militares. (PINHO, 2003, p. 21).           Em dezoito meses a ARPA lança um satélite artificial, o primeiro dos Estados Unidos que permite o funcionamento desse projeto. Pinho (2011) aponta que, apesar de haver um cerceamento das comunicações tantos nos países capitalistas e comunistas o Departamento de Defesa norte-americano sistematizava “planos complexos de comando e controle para que as altas patentes militares e os políticos pudessem se comunicar e sobreviver no meio de uma guerra nuclear” (PINHO, 2011, p. 21).
           

Assim, no marco da Guerra Fria, o pesquisador Carl Robnett Licklider associado a empresa Rand Corporation, descobriu ser necessário a criação de um sistema de comunicação não hierárquico em substituição do tradicional e “a implementação de redes de comutação de pacotes, os quais garantiriam que o comando e o controle dos Estados Unidos pudessem sobreviver no caso de um ataque nuclear maciço destruindo o Pentágono” (PINHO, 2011, p. 22). Então eles partiram de uma estrutura que possuía uma central de comunicação, localizada no Pentágono, para um sistema com múltiplos centros. Antes a comunicação partia do Pentágono, com diversos raios. O novo sistema proposto tinha interconexões em vários pontos e não impedia que a mensagem chegasse ao seu destino caso o centro fosse destruído. Essa tecnologia foi desenvolvida entre 1962 e 1964, como historiciza Pinho (2011, p.23), “é como uma esfera, na qual cada nódulo está conectado com todos os outros e ainda com o central por múltiplos links”.

Assim, O modelo de comunicação não-hierárquica ainda tem a vantagem de possibilitar um protocolo ou conjunto de regras para dividir a mensagem em pacotes menores, os quais seriam endereçados separadamente e remetidos de uma máquina para outra, com evidentes vantagens na velocidade de transmissão e no tráfego por rotas menos congestionadas. (PINHO, 2011 , 23)
Assim a ARPA, em 1967, lança o “primeiro plano real de uma rede de comutação de pacotes”, (Idem, p. 24) sendo batizada de ARPAnet. Esta foi a antecessor da Internet, que iniciou seu caráter experimental em 1969, formada inicialmente pela conexão de computadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), do Stanford ResearchInstitute (SRI), da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (UCSB) e da Universidade de Utah. Em 1972, a BBN cria o primeiro programa de envio de correio eletrônico. Em 1973 a Inglaterra e Noruega se juntam a rede por meio do UniversityCollege de Londres e da Royal Radar Establishment. Então iniciam-se as pesquisas para aperfeiçoar o sistema de transferência de dados, fazendo com que a ARPAnet chegue “ao final de 1974 com 62 servidores e a necessidade de aperfeiçoar o protocolo de comunicação” (Idem, p. 26).

O Bob Kahn e VintonCerf desenvolveram e propuseram um novo conjunto de protocolos que permitia a comunicação entre diferentes sistemas. O TransmissionControlProtocol (TCP) e o Internet Protocol (IP) oferecem 4 bilhões de endereços diferentes e utilizam uma arquitetura de comunicação em camadas, com protocolos distintos cuidando de tarefas distintas. A ARPAnet adotou progressivamente o TCP/IP, que funcionou em paralelo com o NCP, até o dia 1º de janeiro de 1983, quando cada máquina conectada com a ARPAnet teve de passar a usar o novo conjunto de protocolos TCP/IP (Idem, p. 27).
           

Surgiram outros protocolos de transmissão mais sofisticados como o Net News TransferProtocol (NNTP) e as possibilidades de uso vão se expandindo. Essa rede hoje inteliga 2.500 universidades e institutos de pesquisa nos Estados Unidos, na Europa e no Japão. Neste sentido,

em 1980 foi criada aBecauseIt´s Time Network (Bitnet), uma rede acadêmica da City University de Nova York, com conexão à Universidade de Yale, que utiliza sistemas de correio eletrônico e um mecanismo conhecido como ‘listserv’, que permitia aos usuários publicar artigos e subscrever mailing lists especializadas em determinados assuntos enviando mensagens para um servidor de listas (idem, p. 27).           

Em 1984, a National Science Foundation (NSF), um órgão independente do governo norte-americano, passou a ser responsável pela manutenção da ARPAnet. Em 1988 foi criada a Internet Relay Chat (IRC), desenvolvido por JarkkoOikarinen, que permite a diversos usuárias conversarem online. “Outros países se conectam a rede: Canadá, Dinamarca, Finlândia, França, Islândia, Noruega e Suécia”. Mais 10 países entram em 1989: Austrália, Alemanha, Israel, Itália, Japão, México, Holanda, Nova Zelândia, Porto Rico e Reino Unido. “No mês de setembro do mesmo ano surge oficialmente o projeto de uma rede brasileira de pesquisa, a Rede Nacional de Pesquisa (RNP), formado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, CNPq, Finep, Fapesb e outras instituições de pesquisa” (PINHO, 2011, p. 30).
           

A WorldWide Web surge em 1991, idealizada pelo engenheiro Tim Berneers-Lee, no Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN), em Genebra, na Suiça. Este é um modo de organização da informação e dos arquivos na rede. “É baseado no modelo de cliente-servidor, tem como principais padrões o protocolo de comunicação HTTP, a linguagem de descrição de páginas HTML e o método de identificação de recursos URL” (PINHO, 2011, p.33). Em 1991 foi permitido o uso da rede para fins comerciais. Em 1993 os meios de comunicação e os negócios para a utilizar a rede. O uso dos recursos de multimídia na Internet surgem a partir do uso de um programa, o Mosaic.

A abertura da internet comercial ocorreu no Brasil em maio de 1995, deixando a rede de ser exclusiva do meio acadêmico para estender seu acesso a todos os setores da sociedade. Entre outras razões, a expansão verdadeiramente vertiginosa da Internet no país (e, naturalmente, em todo o mundo) foi estimulada pelo contínuo e maciço ingresso no ciberespaço de governos, organizações, instituições e empresas comerciais, industriais e de serviços. Aos poucos, até mesmo as empresas de comunicação tradicionais migraram para a rede mundial buscando oferecer aos internautas conteúdo e informação durante as 24h do dia, todos os dias.
Todavia, embora o desenvolvimento de tecnologias propiciasse a expansão da internet, o acesso ainda continuaria restrito por alguns anos, como veremos no ponto a seguir.

3.2 AS EXCLUSÕES NA GRANDE REDE MUNDIAL
           

Assim, a expansão da Internet levou a um crescimento vertiginoso de sonhos e possibilidades, muitas das quais não se concretizaram. Um das discussões mais otimistas se davam em relação a democratização da informação e da comunicação. Em parte essas expectativas se concretizaram. Porém a exclusão digital também acompanhou esse crescimento. Um contingente de pessoas já marginalizadas pelo sistema produtivo não tinham acesso à INTERNET, o que provoca exclusões importantes e a emergência do chamado “analfabetismo digital”.
           

Na América Latina, a cobertura de celulares atinge quase a totalidade da população e nos últimos dez anos o número de usuários da Internet no continente duplicou. “A porcentagem de latino-americanos que usam a Internet passou de 16,6% em 2005 para 53,5% em 2015, segundo o relatório “O ecossistema e a economia digital na América Latina”, coeditado pelo CAF -banco de desenvolvimento da América Latina-, CEPAL, CET.LA e Fundação Telefônica” (CAF,2016). Porém está longe das taxas de uso dos países da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE) que são de 82%. Esta organização é composta por 35 países. A maioria possui PIB e índice de Desenvolvimento Humano elevados.
           

Em 2015, em relatório divulgado pela International Telecommunication Union (ITU), agência das Nações Unidas para as telecomunicações, o mundo já atingia 3,2 bilhões de internautas, sendo 2 bilhões em países em desenvolvimento. Porém, 2/3 da população das nações em desenvolvimento, ainda não tem acesso à Internet. (O GLOBO, 2015)
Esses novos dados não apenas mostram quão rápido foi o progresso tecnológico feito até hoje, mas ajudam a identificar aqueles que estão sendo deixados para trás pela economia digital, assim como as áreas que mais precisam de investimentos — disse Houlin Zhao, secretário-geral da ITU em conferência de imprensa nesta terça-feira, em Genebra.Há 15 anos eram apenas 738 milhões de internautas no mundo, sendo apenas 100 milhões no mundo em desenvolvimento. Entre 2000 e 2015, a penetração da internet cresceu sete vezes, de 6,5% para 43% da população global. A proporção de residências com acesso à internet avançou de 18% em 2005 para 46% em 2015. Apesar disso, entre os 940 milhões de habitantes de países pobres, apenas 89 milhões usam a internet, o que corresponde a uma taxa de penetração de apenas 9,5%.Entre os celulares a adoção foi ainda mais rápida. Em 2000 existiam 738 milhões de assinaturas no mundo, e, agora, elas já superam as 7 bilhões, com taxa de penetração de 97%, o que representa praticamente um celular por habitante no planeta. Isso se deve ao rápido avanço da cobertura. Em 2000, apenas 58% da população mundial vivia em locais cobertos pela rede 2G. Em 2015, o percentual chega a 95%. (O GLOBO, 2015, editoria de Sociedade)           

Entre os excluídos, as populações das áreas rurais de países em desenvolvimento são as mais atingidas. Lugares em que, geralmente, encontram-se as comunidades quilombolas. Assim, ainda que haja o uso dessas redes e o acesso a essas tecnologias, isso se dá de forma limitada e em muitas áreas, como em algumas áreas rurais em Juazeiro-Ba, inexistente, em termo de cobertura de rede. Portanto, pensar nas dificuldades encontradas pelas comunidades para acessar a INTERNET é pensar nos números que falam da exclusão digital, na verdade associada a várias outras exclusões a que estão submetidas essas populações.

As exclusões estão postas no mundo virtual, mas as articulações e ativismos acontecem na grande rede mundial. Para entender esse processo trazemos algumas referências da área da cibercultura. Lançado em 1997 como resultado do relatório apresentado ao Conselho Europeu no âmbito do projeto “Novas tecnologias: cooperação cultural e comunicação”, o livro Cibercultura é um marco para a compreensão dos estudos nesta área. Pierre Lévy (1999, p.12), preconiza em sua obra que “mudanças qualitativas estão ocorrendo na ecologia dos signos e o ambiente inédito que resulta da extensão das novas redes de comunicação para a vida social e cultural”.
           

O autor já preconizava o pagamento dos serviços online e o aumento dos abismos sociais: “O crescimento do ciberespaço servirá apenas para aumentar ainda mais o abismo entre os bem-nascidos e os excluídos, entre os países do Norte e as regiões pobres nas quais a maioria dos habitantes nem mesmo tem telefone” (LEVY, 1999, p.12).            Assim o autor define ciberespaço e cibercultura:
O termo especifica não apenas a infraestrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo. Quanto ao neologismo ‘cibercultura’, especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço. (LEVY, 1999, p.17)           Segundo Levy, o desenvolvimento de tecnologias no ciberespaço, ou cibertecnologias, são encorajadas pelos Estados e a necessidade de supremacia militar é um elemento importante. O que está sendo desenvolvido em termos de tecnologias é imprevisível, dado ao crescimento vertiginoso das interfaces e possibilidades. Para o autor “a emergência do ciberespaço acompanha, traduz e favorece uma evolução geral da civilização. Uma técnica é produzida dentro de uma cultura, e uma sociedade encontra-se condicionada por suas técnicas” (LEVY, 1999, p.25).
           

Uma discussão que nos interessa, desenvolvida pelo autor é relativa as formas de apropriação dessa tecnologia, que ele vai dizer que não é bom nem má. No entanto ele faz uma afirmação controversa de que a “a evolução contemporânea da informática constitui uma impressionante realização do objetivo marxista de apropriação dos meios de produção pelos próprios produtores” (LEVY, 1999, p.245). De certo modo o autor tem razão porque a Internet tem possibilitado a produção de informações por diversos segmentos, a exemplo das comunidades quilombolas. Porém, a exclusão e o analfabetismo digital tem limitado enormemente o uso e ampliação de suas potencialidades. Os grupos excluídos que atuam na esfera digital o fazem em desvantagem em relação aos grandes empreendimentos que tem acesso a uma tecnologia mais rápida e preparo para o seu manejo. Obviamente que isso impacta nas audiências de suas páginas.            

O autor ainda enfatiza como se dá esse processo e suas possibilidades:
Hoje, a ‘produção’ consiste essencialmente em simular, em tratar a informação, em criar e difundir mensagens, em adquirir e transmitir conhecimentos, em se coordenar em tempo real. A partir daí, os computadores pessoais e as redes digitais efetivamente colocam de volta nas mãos dos indivíduos as principais ferramentas da atividade econômica. Mais ainda, se o espetáculo (o sistema midiático), de acordo com os situacionistas, é o cúmulo da dominação capitalista, então o ciberespaço faz uma verdadeira revolução, já que permite – ou permitirá em breve – a qualquer pessoa dispensar a figura do editor, do produtor, do difusor, dos intermediários de forma geral para disseminar seus textos, sua música, seu mundo virtual ou qualquer outro produto de seu espírito. Em contraste com a impossibilidade de responder e o isolamento dos consumidores de televisão, o ciberespaço oferece as condições para uma comunicação direta, interativa e coletiva. (LEVY, 1999, p.245-246)
           

Nesta perspectiva o autor não tem considerado as questões relativas às exclusões que tem colocado 2/3 da população mundial offline, de acordo com os dados da ONU já mostrados acima. Na verdade, o que nos parece é que a lógica de acesso a Internet está submetida a lógica de consumo de outros bens no mundo capitalista, já que os serviços, como ele mesmo apontou tem se tornado pagos, restringido um acesso universal. Há algumas tendências de universalização, mas que dependem de políticas públicas a partir de visões de governo e de ideologias que atingem o poder. Um dos importantes críticos de Pierry Levy é Francisco Rudiger (2013), que vai apontar as fragilidades desse modelo de interpretação.
           

Para Levy, o ciberespaço é o lugar de desenvolvimento de uma inteligência coletiva viável através das redes abertas da internet, como por exemplo, as comunidades virtuais, fóruns, web blogs e wikis. A internet estaria abrindo espaço para mutações na linguagem, ligadas aos processo de mudança dessa mesma inteligência. Seria uma espécie de aperfeiçoamento da linguagem por meio dessa inteligência coletiva virtual. Ele acredita em uma ciberdemocracia menos excludente.
            

Partindo de forma crítica das discussões de Levy, podemos pensar o Facebook como esse espaço de democratização, feitas as devidas ponderações com relação aos temas da exclusão e do analfabetismo digitais. Agora traremos alguns dados sobre o Facebook, seu surgimento e suas possibilidades.

3.2  O FACEBOOK[1]
           

Lançado em 2004 nos Estados Unidos por Mark Zuckeberg e alguns amigos enquanto estudava na universidade de Harvard, o Facebook (originalmente thefacebook), foi concebido para focar em alunos que estavam saindo do ensino secundário (High Scool, nos Estados Unidos). Como aponta Recuero (2009) a ferramenta propunha criar uma rede de contatos em um momento crucial da vida de um estudante universitário, que é o momento em que este sai da escola e vai para a universidade, representando na maioria das vezes, a mudança de cidade e um espectro novo de relações sociais. No entanto, o sistema inicialmente era fechado e para entrar nele era necessário ser membro de uma das instituições reconhecidas já que o foco era escolas, colégios e universidades.
           

O Facebook funciona através de perfis e grupos. Em cada perfil existe a possibilidade de agregar módulos de aplicativos como jogos e ferramentas diversas. É na pergunta “No que você está pensando agora?” que está fundamentado a experiência da utilização deste site. É dentro do mural que cada ator publicará suas experiências através de textos curtos, textos longos através da criação de notas, já que para publicar diretamente no mural, a publicação não pode exceder 500 caracteres, links para blogs, sites, vídeos, fotografias, áudio, dentre outros.
           

Nos primeiros anos a limitação de contatos era de 5.000, e hoje não existe limitação, a experiência do Facebook permite dialogar para uma audiência considerável, e instantaneamente receber um feedback através do botão “curtir”, do novo botão externo “Eu não gosto disso”, um aplicativo que precisa ser ‘baixado’, o botão “comentar” e até mesmo “compartilhar”, outras publicações em seu mural.   
           

Lemos e Lévy (2010) ressaltam que estas experiências nas Comunidades e Redes Sociais on-line são uma nova maneira de fazer sociedade, e que uma comunidade virtual é um grupo de pessoas que estão em relação por intermédio do ciberespaço. 
           

Os grupos no Facebook, agregam pessoas, objetivos e interesses em comum, dentro deles são discutidos assuntos cujo interesse é afunilado, fugindo do alto grau de dispersão provocado pela atualização ininterrupta da página inicial e do mural. Além da característica inerente ao Facebook que é a publicação de conteúdos multimídia no mural, os grupos permitem conversa simultânea entre seus membros, a inserção de documentos em sua página lateral, sendo esta ferramenta de utilidade prática considerável, já que, devido a sua dinamicidade, os conteúdos publicados no mural do grupo vai dando espaço a novas publicações, e os documentos possuem links fixos, podendo ser alterados e reconstruídos pelos membros do grupo, o que Lévy (1998) chama de Inteligência Coletiva. 
           

O autor propõe que se pense, além do impacto das técnicas sobre a sociedade, em termos de projeto. Os novos meios de comunicação permitem aos grupos humanos pôr em comum seu saber e seu imaginário. Forma social inédita, o coletivo inteligente pode inventar uma ‘democracia em tempo real’, uma ética da hospitalidade, uma estética da invenção, uma economia das qualidades humanas. Lévy (2008) situa o projeto da inteligência coletiva em uma perspectiva antropológica de longa duração. Depois de ter seu ponto fundante na relação com o cosmos e na inserção no processo econômico, a identidade das pessoas e o vínculo social poderiam expandir-se no intercâmbio de conhecimentos.
           

É nesta perspectiva que o Facebook abre portas e caminhos considerados viáveis para que ocorra o diálogo dentro do meio acadêmico e em outros grupos, como as comunidades quilombolas, nas suas relações com a forma de se produzir numa perspectiva que transcenda a individualidade e seja feita de fato coletivamente.
           

Lemos e Lévy (2010) vão dizer que nos ambientes do ciberespaço, as proximidades não desapareceram, elas são redesenhadas como uma classe importante de proximidades semânticas, ao mesmo título que a língua, a disciplina, a orientação política, sexual, etc. Lemos (2004), precursor em estudos de Cibercultura no Brasil, acentua que:
A dinâmica da sociedade contemporânea nos obriga a buscar outras perspectivas para pensarmos o fenômeno tecnológico contemporâneo. A vida vem sempre lutar contra a cristalização mortal e moral das formas, contra as fortalezas solidamente organizadas. A tecnologia não é, e nunca foi, imune às desorganizações da vida. Esta está sempre tentando achar uma passagem pequena, um defeito minúsculo, para poder expandir-se. (2002, p.262)
           

É notório que os movimentos informais avançam muito mais rapidamente do que as estruturas formais, como a máquina do estado. Neste sentido, o que o autor propõe é que uma luta no campo das idéias seja travada contra as fortalezas solidamente organizadas, entendendo aqui por fortaleza, como as instituições cujos paradigmas já se encontram construídos não havendo espaços relevantes para processos criativos e inovadores. 
           

O homem é um individuo comunicativo, pois, comunicar faz parte de sua essência, de sua natureza. As redes sociais online podem aproximar universos distantes, pode otimizar os processos de fluxos de informação dentro mesmo da academia, estas infovias, bem delimitadas produzem uma revolução no modo de construção de sentidos.
           

No caso das comunidades quilombolas percebemos que muitas delas têm conseguido produzir e disseminar linguagens, estabelecer relações com outros grupos, a partir do espaço dado pela Internet, que novos tipos de socialização tem se processado. Porém, precisamos avaliar tudo isso sem o ufanismo que aparece nos textos de Levy e Lemos, pois as exclusões a que os grupos quilombolas estão submetidos os tem impedido de exercer plena liberdade no uso dessas tecnologias. Mas, ao mesmo tempo, muito do que os autores apontam tem sentido, principalmente no que se refere ao fomento dessa inteligência coletiva.


[1] Este tópico está baseado em um artigo publico pelo autor deste TCC durante o II Ecovale – Encontro de Comunicaçao do Vale do São Francisco, realizado pelo curso de Comunicação Social – Jornalismo em Multimeios, em 2011, intitulado APONTAMENTOS PARA A UTILIZAÇÃO DO FACEBOOK COMO FERRAMENTA ACADÊMICA NO CURSO DE JORNALISMO EM MULTIMEIOS DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA. Disponível em: <http://www.uneb.br/ecovale/files/2013/08/artigo-13.pdf> 

Juliano Ferreira do Carmo é Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo em Multimeios pelo Departamento de Ciências Humanas do Campus III da Universidade do Estado da Bahia – UNEB. É Editor de IrecêPress e Diretor Presidente da JF Comunicações. Esta publicação é um capítulo do seu Trabalho de Conclusão de Curso, TCC em forma de Monografia, parte dela foi publicada originalmente em <comunicacaoepesquisa.blogspot.com.br>, para fala com o autor: julianoferreiracarmo@gmail.com; twitter.com/julianoferreira; instagram.com/juliano.jor; facebook.com/julianoferreiracarmo.

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